IIC – INSUFICIÊNCIA (OU INCOMPETÊNCIA) ISTMO CERVICAL


Sabe aquela história de que, quando você tira zero em uma prova na escola, quando criança, você precisa estudar para a recuperação e quase saber mais que o professor para se recuperar do choque e provar para você mesmo que você consegue?

Então… Comigo foi assim, quando perdi o João. Logo que isso aconteceu, toda culpa veio à tona (faz parte do processo de luto também), claro que isso foi só uma analogia né? Sem tirar, pe claro, toda dor e processos envolvidos nesse caminho.

Interessante é que, eu sabia que ele era saudável, tanto que eu não quis fazer nenhuma intervenção em seu corpinho, para saber se o problema da gestação – que até então eu não sabia o porquê de ter dado errado – era uma “pane” do meu organismo ou do dele.

Uma mãe que perde o filho, após passar por toda dor e cansar, literalmente, de chorar, resolve investigar o que houve. No meu caso, eu chorei por um mês, mas mesmo ainda chorando e MUITO fragilizada, eu quis investigar. Ouvi de profissionais que se intitulavam na época “obstetra especialista em gravidez de alto risco” que eu estava “ansiosa demais”. Mas “pera lá”, você acaba de voltar da maternidade para casa, sem seu filho que você gestou por 8 meses, de colo vazio e tendo que passar para todo mundo que eu ia ficar bem (a sociedade é cruel, ela nos cobra demais), como eu já falei nesse post aqui – Precisamos falar sobre isso… –  e vem um ser, que se intitula “especialista” no que você entende que nessas horas, deveria ter uma postura de acolhimento, afeto ou qualquer coisa que não fosse me dar um retorno desse, de que eu estava ansiosa? O mínimo que eu poderia estar era ansiosa mesmo, meu caro “ex” obstetra, se eu estivesse louca, ainda sim eu poderia estar e ele não poderia nada disso falar.

Passando o desabafo… (pausa para a respiração ofegante).

Mas aonde eu quero chegar com isso? Passada todo choque dos primeiros momentos e enfrentamentos que quis passar, para que a fase do luto fosse, talvez, mais branda, eu me tornei, literalmente, uma “PHD” em obstetrícia de alto risco! A informação, de certa forma, me acalmava. Li artigos científicos sobre TODAS as complicações que pudessem existir para que uma gravidez, quase considerada fora da prematuridade extrema, se resultasse em um natimorto e uma mãe enlutada. Acho que nem na minha faculdade INTEIRA de psicologia e em toda minha vida escolar, eu estudei tanto. 

Um dos assuntos que estudei, muito, mas parece que já era Deus me preparando, foi sobre a IIC (insuficiência ou incompetência istmo cervical). Muito mais comum do que a trombofilia, porém, o risco de mortalidade é “somente” no feto. Mas “pera lá” ( de novo), por que eu estudei tanto sobre isso? Eu explico. Na ultrassom em que eu soube do falecimento do João, o obstetra havia me perguntado se eu não percebi que escorreu líquido pelas pernas. Fiquei encucada com aquilo, mas é óbvio que não havia acontecido! Porém, como eu ainda não entendia nada disso, me lembrei que um dia fui ao banheiro e urinei muito. Porém logo pensei. Mas gente, o ato de urinar é controlável, ou melhor, eu já havia me informado que, quando a bolsa estourava, não tinha como segurar, que seria água para todo lado, descendo pelas pernas. Com isso, logo descartei (a obstetra kkk) a IIC como sendo causa da perda do João.

No 15º dia após a morte do João, eu já estava no consultório da Dra Beatriz Amélia Monteiro de Andrade. Costumo dizer que ela é meu anjo na terra, em forma de obstetra (realmente era a especialista em gravidez de alto risco que procurava naquele momento), ela deve gostar de um pepino, né? Rs

Fui na Dra Bia por indicação de uma amiga do meu esposo, que possui a trombofilia. Ela, logo que eu falei os primeiros sintomas, já começou a falar na trombofilia e descartar a IIC.

Agora vocês estão aí se perguntando, por que a Carol fez toda essa introdução, para falar sobre um problema na gravidez, que ela não teve?

Porém, meus amores, eu tive, mas na segunda gravidez, a do Rafael…

Logo que saí do consultório da Dra Beatriz, ela me pediu que fizesse os exames para trombofilia e me pediu principalmente que, eu jurasse, que não engravidaria em, pelo menos, 3 a 6 meses. Uma vez que ela não só pensava no tempo do útero inteiro se recuperar, mas percebi que ela pensava também, no tempo que eu precisava me dar. Para elaborar aquilo tudo que estava acontecendo comigo. Ela não é um anjo? Gratidão eterna.

Mas como eu vivia com a Síndrome da Mulher Maravilha nas costas e na cabeça, achando que dava conta. Logo após passar o período necessário após uma perda, para fazer os exames de trombofilia, que são de 15 dias, realizei e aguardei os resultados. O laboratório estava de brincadeira comigo (rs). Soltava cada resultado, um por dia. Mas era coisa de Deus, mesmo! Parecia que era para eu esperar o máximo possível. E como eu já disse no post, sobre os exames de trombofilia, alguns deles são exames genéticos e demoram de 15 a 40 dias úteis para sair o resultado. Haja paciência e ansidade!!!

Os exames ficaram prontos, por volta de 1 mês, após eu sair do consultório da Dra Bia com os pedidos. Resultado: todos negativos! Mas ela já havia me falado, que pelo laudo da placenta (infarto placentário), pelo meu histórico, ela me prescreveria, de toda forma, a heparina, na dosagem profilática, ou seja, uma prevenção, mesmo os exames dando ou não negativo.

Quando voltei para mostrar os exames para ela, 2 meses após ter ido lá, eu já estava grávida novamente! E vocês lembram que ela pediu pelo menos 3 meses após o parto para engravidar? E após todos os exames prontos? Pois é, eu só não obedeci a primeira parte do juramento. Rs! 

Me lembro que eu tremia as pernas, aguardando ser atendida e nesse meio tempo, contei para a Renata, secretária dela (outra querida nossa). Ela quase deu pulinhos de felicidade. Me lembro até hoje do abraço que ela me deu de parabéns! E do tanto que me pedia para acreditar em Deus e na obstetra. 

Chegou a hora de entrar no consultório e é claro, a Dra Bia me deu aquela bronquinha. Mas logo levantou-se da cadeira e me deu um abraço e os parabéns, comemorou comigo e me disse:

_”Vai dar tudo certo! Vamos tratar essa gravidez como sendo outra história. Outro filho ou filha e tente ficar calma, pois o que tiver ao meu alcance e ao alcance da literatura médica, eu farei por vocês.”

Aquilo ali foi uma injeção de fé muito grande! Ela foi muito sábia em colocar cada palavra dessa em meu coração. Tanto que me lembro delas, com detalhes, até hoje.

Na 11º semana de gravidez, eu ainda não sabia o sexo, mas isso para mim não importava. Na verdade nada importava, eu só queria meu filho ou filha nos braços com, pelo menos, 38 semanas de gravidez. Mas enfim, na semana que completei 11 semanas eu tive um sagramento. Gente, eu enlouqueci de medo!!! Pavor!!! Esse foi meu primeiro nível de stress mais alterado, durante a gravidez. Liguei para Dra Bia na hora, ela pediu que eu enviasse foto, enviei. Ela com todo cuidado e carinho, disse que infelizmente se fosse um aborto espontâneo eu iria saber e que nada poderia ser feito. Um bebê não tem possibilidade nenhuma de sobrevida extra uterina, antes de, pelo menos 24, 25 semanas, mesmo assim, com auxílio de uma UTINeo e com muito risco de morte.

A obstetra me deu uma guia (eu sempre tinha uma guardada, ela nunca me deixou sem guia de ultrassom) e graças a Deus, o bebê estava ótimo e minha placenta só estava um pouco baixa). Me pediu repouso relativo, ou seja, ficar mais tranquila (cê jura que fiquei né?), não pegar peso, etc. e me prescreveu uma progesterona intravaginal. Fiz tudo que ela mandou.

Passadas 5 semanas, nada de sangramento mais. Eu vivendo meu luto ainda da última gravidez e convivendo com a fantástica oportunidade de um novo filho no ventre, só conseguia falar do assunto, para os poucos que sabiam da gravidez, não conseguia ficar nem 1 minuto sem pensar no assunto. Sempre com muita fé, força e coragem para seguir adiante no meu sonho. 

Em uma consulta de rotina, ao fazer o toque (o que salvou a vida do meu filho), que agora já tinha sexo e nome, meu Rafael, a Dra Bia percebeu que eu estava com o colo dilatado em quase 2 cm. A expressão facial dela mudou na hora. O cuidado dela era tanto que ela já ligou para a equipe da maternidade onde eu ganharia o Rafael e conversou sobre a possibilidade de realizar um procedimento chamado cerclagem (costura do colo do útero). Procedimento que salva vidas e é muito comum de acontecer. Colocou na balança os riscos e benefícios e decidimos por realizar o procedimento.

Pronto, mais nível elevado de stress, mais uma crise de pânico e pavor por pensar em não ter mais um filho nos braços. E eu só me perguntava o porquê de ter que passar por mais uma provação. Penso hoje que era um teste de fé.

E não tive nenhum tipo de afrouxamento ou dilatação precoce do colo, na primeira gestação. Essa não era uma tendência minha. Mas tenho comigo que a proximidade dos partos, bem como a curetagem pós parto normal que o médico da época realizou, influenciou em uma possível dificuldade maior na cicatrização do colo. A Dra Bia havia me alertado, mas eu não obedeci. Lembram? Ela fala comigo que uma coisa não tem relação com a outra, mas dentro de mim diz que sim. Coisa de mãe.

Vou explicar melhor como é feita a cerclagem – Coloca-se um fio de sutura no colo uterino para impedir sua dilatação antes do tempo desejado, isto é, o termo na gestação. Porém, ela só é feita com segurança, até as 12 semanas e eu estava com 16 semanas!!! Puts, mais motivo pra morrer de medo…

Haviam diversos riscos: da bolsa estourar (o pior deles) e o de todo procedimento, de adquirir uma infecção, etc. Mas dentro de mim dizia que tudo daria certo!!!

Fiz o procedimento com ela e fui liberada no dia seguinte para casa. Quando o Dr Frederico Peret (ele faz parte da equipe de alto risco da maternidade e trabalha junto com a Dra Bia) me deu alta, dizendo que tudo foi um sucesso, eu nem acreditei! Graças a Deus!

Fui para casa com as seguintes recomendações: Repouso absoluto até, pelo menos, 37 semanas; tomar progesterona (via vaginal), duas vezes ao dia, até essas 37 semanas (que nunca cheguei em nenhuma gestação, rs).

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Minha companheirinha Maitê, desse tal repouso que não acabava nuncaaa!

Quero voltar a citar minhas amadas amigas de infância, Pri e Carlinha, que iam TODA SEMANA rezar o terço da misericórdia comigo e minha família, no início de cada semana, para que eu começasse a próxima com mais fé. E era isso que acontecia. Gratidão eterna, amigas!

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Duas amigas de infância e com certeza, companheiras de outras vidas.

Gratidão também à todas as amigas do grupo de trombofilia, em especial, a Letícia Murta, do blog Eu curto ser mãe, mãe do anjo Francisco, que partiu aos 38 semanas de gestação e da linda Iolanda em seus braços. Também à Isabela Gibosky, mãe da Maria Fernanda, anjinha linda, que chegou a nascer, mas faleceu 60 horas após o parto, em função da prematuridade e hoje mãe também dos lindos Pedro e Clarissa.

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Só nós sabemos o quanto desejamos fazer  essas fotos! Olha lá a Clarissa na barriga da Bela.
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Nossos milagrinhos: Iolanda, Rafael e Pedro Lucas

À Cris Dias, muito querida e amiga, que também teve IIC na gravidez. Estávamos grávidas juntas e hoje ela tem a linda Aninha, com quase a mesma idade do Rafa e um cromossomo a mais, o cromossomo do amor (ainda farei um post especial para ela). A Cris conversava comigo quase todos os dias, trocava suas angustias e lia todas as minhas, via inbox no facebook.

Amo muito todas vocês!

Voltando…

Porém, algo me dizia que meu menino viria nas 34 semanas. Eu sempre falei no dia 4 de janeiro, pois era o dia em que eu completaria as temidas e traumáticas 34 semanas. Mãe sabe, mãe sente. E mesmo com todo cuidado e orações do mundo, minha bolsa estourou exatamente no dia 4 de janeiro, em um sábado! O resultado disso, vocês já sabem.

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Eu ainda farei um post especial sobre mamães de UTINeo. Nós somos realmente escolhidas por Deus para passar por aquele ambiente. Não por que somos especiais, mas dali tirei tanto aprendizado, colhi tanta informação preciosa, fiz amigos tão queridos. Amei de graça tanta mãe, tanta enfermeira e tanto bebê, que chego a me emocionar toda vez que me lembro.

Minha experiência com a IIC foi essa. E confesso que não tive outro filho ainda porque não posso fazer repouso na gravidez, caso ele seja necessário mais uma vez. Como fazer repouso com um espoletinha, lindo, de 2 anos e meio? rsrs É imprevisível eu ter novamente a IIC no meu caso, uma vez que no primeiro parto não aconteceu. Demorei 22 horas para dilatar no parto normal induzido do João, mas…

Conte-me como foi a sua experiência! Por onde preferir. Por e-mail, pelo facebook, ou por aqui mesmo. Talvez eu possa lhe indicar especialistas – caso você tenha passado pela mesma experiência – em que possam te ajudar em uma próxima gravidez, em toda parte do Brasil, pois tenho contatos com mães de tudo quanto é lado desse país, que passaram pelo que passei e podem indicar também, pois hoje tem seus amores nos braços.

Segue link de perguntas e respostas, do site do Dr Ricardo Barini, muito recomendado entre as trombofílicas amigas, lá de Campinas/SP, para que vocês possam tirar algumas dúvidas. 

Perguntas e Respostas sobre IIC e cerclagem

Espero ter sido o mais clara e didática possível.

Beijos no coração e uma semana abençoada para todos nós!

(Falei que segunda-feira era dia de textão) rsrs


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